quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Gilmore Girls: feminismo, relacionamentos e café


Motivado pela proximidade do revival e publicado pelo Jornalismo Júnior da USP, o texto abaixo apresenta um panorama geral de Gilmore Girls e destaca que a série esteve a frente de seu tempo em muitos momentos, abordando questões relacionadas ao feminismo, por exemplo. Além disso, evidência a relação familiar e as inúmeras referências à cultura pop muito presente ao longo das temporadas que conquistaram o público.

Gilmore Girls: feminismo, relacionamentos e café

Nove longas voltas em torno do Sol o pálido ponto azul teve que percorrer antes que o grande império dos streamings viesse, em mais um lance de boas ideias, anunciar o revival da série Gilmore Girls (Tal mãe, tal filha na versão oficial em português). Iniciado em 2000 e finalizado em 2007, o programa volta agora em quatro episódios com duração de noventa minutos cada. O projeto vai ao ar no dia 25 de novembro, o que dá pouco tempo de maratona a todos que lembram vagamente da série no SBT. Durante os sete anos em que foi transmitida, a produção de Amy Sherman-Palladino – que também segura as rédeas do retorno – angariou um tremendo público com os diálogos rápidos e sagazes das Gilmore, as vastas referências a universos pop e cult e certamente com a perícia no trato da vida cotidiana. Amizades, namoros, estudos e empregos são panos de fundo das maravilhosas histórias desenroladas na pacata Stars Hollow.


As Lorelai

Stars Hollow é uma pequena e tranquila cidade fictícia onde foi parar Lorelai Gilmore após o nascimento de sua filha com quem decidiu dividir o nome, mas a quem todos chamam Rory. Quando ficou grávida aos dezesseis anos, Lorelai fugiu da vida opulenta e controlada que tinha com os pais, Emily e Richard, e construiu, às custas de trabalho árduo, um ambiente mais adequado às nuances de sua personalidade simples e desregrada. Para criar Rory, trabalhou numa pousada local na qual ascendeu à posição de gerente. Quando Lorelai se recusou a montar uma vida familiar com o pai da criança, Christopher, por serem ambos muito novos e imaturos, ele foi tentar a vida em outros lugares e não fez parte da vida da filha completamente.

Lorelai criou Rory sozinha e procurou seguir um caminho muito diferente da educação que seus pais a deram. Elas são melhores amigas e todos os esforços maternais foram na direção de fazer com que ela se sentisse à vontade para conversar sobre qualquer coisa com sua genitora. As atrizes Lauren Graham e Alexis Bledel deram super certo!


A narrativa começa num momento de estabilidade na vida de Lorelai e Rory: as duas têm uma forte ligação entre si, Lorelai dirige o Independence Inn, está tendo aulas de administração e sonha em um dia abrir um negócio com sua melhor amiga, a chefe de cozinha Sookie. Rory estuda muito e ama ler. Não vai a lugar algum sem um livro em sua bolsa e quer estudar em Harvard com todas as suas forças, pois quer ser uma jornalista internacional como Christiane Amanpour. É exatamente neste ponto que é aceita na escola privada Chilton, instituição muito renomada e também muito cara. Lorelai não tem todo o dinheiro e fica desesperada, o que a faz recorrer às últimas pessoas a quem gostaria de pedir ajuda: seus pais, que fazem parte da alta sociedade. Richard Gilmore trabalha no ramo dos seguros e possui muito dinheiro, de modo que não haveria complicação alguma em ajudar a neta, não fosse pelo acordo que Emily Gilmore propõe como forma de pagamento do empréstimo: jantar toda sexta-feira às sete horas com as meninas Gilmore. Lorelai não fica nada feliz com o arranjo, mas precisa fazer o sacrifício pelo futuro da filha.


Who runs Stars Hollow?

Se hoje algumas séries estão começando a tematizar o empoderamento e emancipação feminina, já podíamos ver esses pontos no cerne do enredo de Gilmore Girls. Para além da trajetória de autonomia de Lorelai, o feminismo permeia a vida das meninas de Stars Hollow, a começar pela cumplicidade de mãe e filha. Apesar dos problemas no trabalho, escola, namoro, elas sempre voltam uma a outra para garantir apoio e essa sintonia está acima de qualquer coisa – principalmente homens – estendendo-se também a outras personagens femininas.

“Ela estava deitada no hospital pensando em como os homens estão sempre dando seus nomes aos filhos, então por que as mulheres não poderiam? Ela diz que o feminismo meio que falou mais alto.”
Outra coisa é a harmonia de Rory consigo mesma. Isso é, ela gosta do que gosta, faz o que faz, tem suas prioridades bem definidas e está tudo bem que os outros adolescentes – principalmente homens – não a vejam com bons olhos. Inclusive, ela usualmente encoraja meninas ao seu redor a dar menos a mínima para o que vão pensar.

Tal mãe, tal filha?

Lorelai não tem o mais firme vínculo emocional com sua mãe Emily Gilmore. A dinâmica parental pode ser bem complicada, ainda mais quando se adiciona gravidez na adolescência ao natural conflito de gerações de uma família tradicionalmente conservadora. Se por um lado isso prejudicou a relação entre Lorelai, Richard e Emily, por outro não findou todos os canais de comunicação entre eles. Lorelai sempre teve a opção de continuar onde estava e seguir a vida dali, mas, espírito livre como é, decidiu afastar-se de tudo e, até os jantares de sexta, raramente via os pais. Emily sofre muito com isso, mas reage a essas adversidades de forma dura e orgulhosa. No fundo, o que ela sempre quis foi ter uma união saudável com Lorelai.

Gilmore Girls opera o tema família com destreza ao manter o caráter complexo dessas relações, fazendo com que compreendamos as atitudes de Lorelai, mas que também pensemos em certos momentos “é, talvez Emily tenha um ponto”, não deixando de fazer evidente a influência que as psicologias das personagens têm em todos os confrontos e, claro, levantando discussões super interessantes sobre opressão, pedagogia, afetividade e mais. Afinal, laços sanguíneos garantem bons relacionamentos? Vale a pena manter-se numa relação desgastante com familiares? Como construir amizade entre pais e filhos?

Em lado oposto, Lorelai e Rory não conseguem ficar muito tempo separadas. Em muitos episódios fica claro que todo esse amor é pautado na liberdade de ser das duas. Elas têm personalidades muito distintas e algumas brigas são inevitáveis, mas é sempre certo que as coisas acabam se acertando entre elas.

“Não, isso não é ruim. É apenas como ela é. Eu criei Rory para fazer o que quisesse contanto que não machucasse ninguém.”
Mais relacionamentos

Também outros tipos de relação a série é muito feliz em representar, como as lindas amizades em Stars Hollow. Rory tem sua melhor amiga Lane, uma vizinha viciada em música que tem uma mãe muito severa. Elas contam tudo uma para a outra e Rory está sempre ajudando a amiga a fugir do relacionamento danoso que tem com a mãe.

“Sexo é ótimo?”
“Não na frente dos livros, Lane.”
Na vida de Lorelai quem faz esse papel é a chefe Sookie. Durante os expedientes no hotel, é com ela que alguns dos diálogos mais engraçados acontecem. Tudo de bom e ruim que ocorre na vida das duas é compartilhado naquela cozinha do Independence Inn enquanto Sookie preocupa-se em fazer o melhor dos pratos.

“Me diz que não é aquele idiota do Donald Trump.”
E claro, há muito espaço para os amores. Mas, fugindo de spoilers, vamos apenas deixar essa consideração super real de Lorelai Gilmore:

“É tudo o que qualquer um de nós quer: achar uma pessoa com quem conversar até cair morta. Não é pedir muito.”
A útil metalinguagem

Um dos grandes pontos altos da série é a quantidade de referências a que temos acesso através das falas rápidas e sarcásticas das Gilmore. Quem já viu qualquer coisa do programa sabe que em alguns instantes é bom ter aberto uma aba com o google. As piadas nem sempre vão ser tão notórias, principalmente com as alusões a figuras de passados distantes.

O mais incrível são as inúmeras citações a livros, filmes, seriados e bandas. Rory é uma ávida leitora e sempre podemos receber uma boa dica de obra em um episódio aleatório. Quem preferir um filme também será contemplado: as Lorelai amam comprar muitas besteiras para comer e passar uma noite assistindo a uma película de acordo com o humor delas. Um site compilou os livros lidos por Rory durante as sete temporadas para facilitar nossas vidas e aqui temos uma relação dos filmes mencionados por nossas cinéfilas favoritas.

“Então, qual é o filme de hoje?”
“Oh meu deus, um clássico!”
“The Johan and Melissa Rivers Story, estrelando…”
“Joan e Melissa Rivers”
O motor de tudo

E, claro, tudo isso regado a muito café. A bebida é quase um personagem com vida na série. Sem ele, as Gilmore Girls simplesmente fariam nada.

“Eu preciso de café na minha veia.”

Por: Wagner Nascimento - Jornalismo Júnior

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